segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"Sobre o Baixo Valor Perdido no Chão"

A céu aberto na Avenida Paulista.
O tom seco de saltos e sapatos arrastando poeira para lá e para cá sem culpas em relação a isso. São objetos, somente. Percussão estrondosa ao pé do ouvido do chão que esconde o metrô perfurando a pressa logo abaixo. Nada disso pode significar qualquer coisa para quem caminha ou é capaz de caminhar; nada disso pode ser considerado interessante para quem respira o ar da tarde próxima ao semáforo próximo ao ponto de táxi próximo da noite próxima das 18 horas. Buzinas de motociclistas que costura carros, seus oponentes. Um inferno para trafegar e estacionar, e não importa a hora, todo mundo sabe disso, não é preciso estar lá. Tudo irrelevante para quando não se dorme e o sono é supérfluo... para ela, a moeda: para ela é assim.
Calor mentiroso acobertado por uma nuvem sem cor, apenas; um invólucro enorme e magoado por uma série de pretextos poluentes e climáticos do coração econômico do país. Será que isso um dia muda? A moeda, pra ela é assim: arranhões sem dor, arrastões inocentes e passos alheios espremendo tudo debaixo dos pés. O metal toca o asfalto, toca a sujeira, sem perder seu real valor. Como quando alguém mata formigas ao caminhar, alguém as pisoteia sem tomar conhecimento do que acabou de fazer. Para a moeda é assim, quase sempre.
Fácil e acessível como um pequeno furto caído próximo à guia que separa a tranquilidade do atropelamento na via expressa sem ninguém notar a tensão entre as duas possibilidades. A céu aberto na Avenida Paulista e nada faz sentido a não ser quando por ali passa Aquele ou Aquela, impregnados de características típicas. As roupas bacanas do sujeito bacaninha que aparenta ter uma vida completa. Os óculos gigantes da garota quase feia com um jeito nojento e empolado de andar mascarada e segura de si. Os cães de raça, os vira-latas. Pessoas simples, colegas do cotidiano... bonitos, feios e simpaticamente ordinários; aí sim está resguardado o melhor – e para eles o melhor está resguardado em algum lugar não tão longe de lá.
Procura-se a meada do nexo enquanto simultaneamente, sem assumir, pessoas dedicadas e raras procuram sorrisos naturais desvanecendo entre coisas opostas que se vê por aí. Não se sabe como se dá abertura a isso, mas é o que acontece nesta tarde enquanto para alguma coisa qualquer é necessário permanentemente valer cem centavos de real: um olho monetário no chão podendo fazer a alegria de alguém. Pedestres, caminhos sinuosos e retilíneos de um mar de gente que carrega o corpo para se desgastar por obrigação nos quatro cantos da cidade. Não se ouve nomes, não se ouve reclamações. Ninguém é dono do que diz ter. Ao menos na calçada, um infalível valor pendente espera ser gasto como sempre.
São Paulo da garoa faz jus ao apelido garoando sem grande vaidade, acostumada. Chuva fina sobre várias porcarias e tesouros no chão. Só resta maldizer o molhado que vem de cima desfazendo penteados e determinando o fim da tarde.
A céu aberto na Avenida Paulista e alguém que caminha como quase todo o fluxo: alguém com um nome e munido de guarda-chuva e indiferença sorri por dentro ao contemplar a própria sorte e extrai do chão a solução do conforto e completa a passagem do ônibus que agora deve pegar para fugir da chuva que começa a arquitetar uma trama mais séria.
Amanhã a catástrofe virá a ser comentário, as calamitosas negligências que dão as caras ano a ano, como se fosse Natal, Páscoa ou Carnaval: a enchente; os desmoronamentos, longe da Avenida Paulista.
E visto que é trivial correr aleatoriamente para qualquer canto a favor da própria vida, visto que vez ou outra não há motivos compassivos que nos permitam olhar para o chão ou para o céu com a intenção principal de observar por onde se passa dia a dia, é possível garantir que há gente em pé com olhar horizontal que anula a tradicional paisagem e suas probabilidades abertas...
A céu aberto na Avenida Paulista. Seja lá o que for, vale ser inserido nesse amontoado de definições. E nenhum drama maior domina quaisquer ações civis enquanto tudo for invisível.

"Sobre Abalos"




Ela pede com gestos e com o rosto reminiscente para ele perder a cabeça de uma vez sem pensar, mas aí ele se trai e põe as mãos nela obedecendo aos sinais: agora ele é um cafajeste. Quadril, cintura. A bunda dela, por meio do tato, é um delicioso amontoado irremediavelmente macio de vontades que lhe cutucaram o pensamento por um par de meses ou mais. O beijo dele é aflito e aquela barba irrita a pele do jeito que ela imaginava e queria que fosse. 
Morre a curiosidade como morre acima deles a luz do poste que pisca uma sequência perturbadora como pisca a informação do outdoor que arranha parte da cena como arranha o chão os tilintantes cacos de vidro que ladeira abaixo deslizam inevitavelmente como desliza o cheiro da dama-da-noite da esquina que ano a ano cresce como cresce a mesma indiscrição que dá início a toda infidelidade. Aglutinação de enfeites estranhos que tornaram aquele maldito momento excepcional para os dois, Carla e Thiago. Morre tudo isso em torno de um beijo lento, sem promessas.
Marido de Carla conta as despesas do mês na mesa da cozinha. Esposa de Thiago pinta as unhas de violeta enquanto assiste novela.
Os fatos prosseguem remoendo nas cabeças antes do conhecimento de todos. Thiago volta para casa com o cheiro de Carla esparramado na roupa e no corpo. Carla faz planos em segredo como fazia bem antes do beijo, o qual ainda é sentindo naquelas duas bocas. Gosto delicado de saliva com ruptura.
Thiago põe os pés dentro de casa saboreando um natural sentimento de culpa. Com medo de que sua mulher descubra, ele apenas diz de longe um olá meu amor e corre para o banheiro dizendo que está apertado. Toma banho e lava tudo cuidadosamente para não restar vestígios. Joga a roupa suja no fundo do cesto para se misturar com o suor das outras.
Quando volta à sala, ela põe a mesa e eles jantam uma macarronada em meio a perguntas do cotidiano. Tudo é cenográfico, morno e protegido. Por dentro dos dois dói lentamente o tédio que não sabem como liquidar. Ela nem quer mais aquilo, e é difícil por um ponto final quando não se tem a coragem necessária. Mais fácil esperar pela catástrofe. Assistem ao jornal, um seriado e depois vão dormir sem ter assunto para depois.
Carla chega e vê seu marido sentado calculando o orçamento. O beijo ainda repercute no pensamento e ela precisa continuar aquilo seja lá como for. Puxa o marido, beija o pescoço dele, põe a língua em sua boca e acendem. Com efeito, transam rapidamente sobre a mesa cheia de recibos e cartas abertas.
O resto da noite prossegue quase usual, com uma leve alteração quando, aproveitando uma disposição sem propósito, eles repetem o sexo. Em ambas as vezes ela imagina Thiago, enquanto o marido faz tudo por fazer, já bastante enojado do sexo conjugal. Deve ter os seus motivos.
Carla faz o dia parecer mais agradável naquela repartição. Está mais bonita, atraindo olhares e elogios de colegas. Thiago observa tudo com um ar de tensão, como se estivesse com medo de perder o emprego. Ele apenas faz seu trabalho quieto, tentando evitar o encontro com Carla. No fundo ele sabe que a condição está se tornando incontrolável e, uma hora ou outra, alguma merda bem feita deverá explodir sem remédio.
Quando Thiago sai para o almoço, Carla corre para alcançá-lo. Alcança. Almoçam juntos num self-service, só os dois. Ele não diz nada, ela fica falando sobre o dia anterior, sobre o que acha, sugestionando. Parece estar desesperada para resolver logo a questão. Não sei, não sei, sei não, repete Thiago ao longo do almoço. A paciência vai acabando aos poucos em forma de provocação, Carla quer resolver a vida como se fosse bastante fácil decidir a que ponto se chega, a que ponto Thiago abrange memórias do casamento.
- A que ponto você quer chegar? – ele pergunta, como se tivesse prenunciado o que ela não disse.
- Você sabe – ela graceja.
- Sei não, não sei.
 - Falta força em você, mesmo. Força pra dizer pra si mesmo que não quer mais aquilo.
- Que aquilo? Minha mulher?
- Eh... Essa vida toda que você leva.
- Ela não é aquilo. Pega leve aí, minha filha. Deve estar falando da sua vida e tenta descontar em mim... Poxa – ficou bravo.
- Ai, não, seu bobo... não se ofende! Longe de mim desmerecer sua namoradinha.
- Esposa.
- É, esposa.
- Quer que eu pense o quê? – pergunta, procurando manter a calma e a compostura, apesar de apresentar uma vermelhidão profunda no rosto.
- Ah, Thiago... Só acho que te falta coragem.
- Coragem? – e respira bem fundo – Coragem eu tenho, pode ficar tranquila.
- Posso apostar?
- Aposta o quanto quiser!
- Eu aposto um real que não.
Ele lança um olha desafiador mais ou menos alienado, ela gosta. Arrumou para a cabeça. Arrumaram.
Thiago chega em casa e tenta encontrar algum resquício deixado para trás. No quarto, pensa sozinho naquilo que pode ser a melhor decisão, até chora em conflito, com o orgulho um pouco ferido e a cabeça perdida. Um tempo depois sai do quarto recomposto. Propõe sair.
Leva a mulher ao restaurante, cinema, até compra para ela um vestido no shopping. Ela nem parece acreditar em tamanha bondade fora de época. Eles brincam, reparam em quem passa por eles, conversam como há tempos não faziam. Existe veracidade na alegria deles.
Há como reverter, mas restam dúvidas. Thiago se pergunta ao longo da noite se ama ou não ama, num incessante e fastidioso círculo sem nexo. Algo mais que cutuca a consciência: é aquela provocação de Carla que virou fardo.
Logo no fim da noite, já na cama, Thiago diz que convidou um casal para ir lá no sábado. Tudo bem para ela.
Por um capricho idiota ele se sente na obrigação de chocar todo mundo.
Dia seguinte manda um e-mail para Carla:
JANTAR EM MINHA CASA: AMANHÃ, 20H. VOCÊ E O MARIDÃO. APOSTO QUE VOCÊ TEM CORAGEM.
Respondeu o e-mail marcando presença. E passou o expediente sem trocar palavra com Thiago, só olhares.
À noite, Carla fala sobre o convite com o marido, que reclama e diz que não é muito de ir à casa dos outros que não conhece. Tenta mais tarde, pede meia hora depois, na hora seguinte, na quarta vez ele cede. Com isso já inventa na cabeça o que irá vestir para ser mais bonita do que ela.
Thiago pede à mulher para fazer strogonoff de frango, prato preferido de Carla. A generosidade espontânea dela – como se estivesse retribuindo o passeio, o vestido, e todo o resto do dia anterior – é tanta que preparará um de frango e outro de carne. Thiago trata de comprar três garrafas de vinho tinto e um engradado de cerveja, caso o maridão prefira. Prenuncia-se um jantar feliz.
A comida quase pronta, um trato rápido na sala. Todos aprumadinhos, bem perfumadinhos e relativamente sobrecarregados, receio de não terem tanto assunto para queimar a noite toda, mas há bebida suficiente para gerar desinibição uma hora ou outra.
Oito e quinze e chegam os convidados. Thiago recebe Carla e Sandro, que cumprimentam Flávia, que sai da cozinha meio desengonçada e tímida, tropeçando no tapete. Vieram munidos de uma caixa trufas e uma garrafa de vodca. Os olhares de Carla sob Flávia são de um desdém contido, assim julga Thiago, que faz sala para Sandro enquanto Flávia vai até a cozinha buscar uns aperitivos, Carla oferece ajuda e vai também em seguida, rebolando levemente, como faz no trabalho.
Thiago e Sandro são opostos, mas os santos batem. Cada um faz duas ou três perguntas babacas sobre trabalho e times de futebol, depois se calam e alternam os olhares ora para os respectivos sapatênis, ora para a televisão. Já está na hora de começar a beber, ambos sentem a necessidade de se ocupar com um copo.
Elas voltam com duas bandejas, uma com queijo parmesão com orégano e azeite e outra com uma cesta de torradas e um pote cheio até a boca de patê de azeitona feito por Flávia. Thiago oferece vinho, todos aceitam. E brindam e bebem e comem e se empanturram de bobagens cotidianas e olhares difusos enquanto evapora a água do arroz. Depois de uma taça entornada mais rápido que a dos demais presentes, Carla pede um copo d’água e Thiago vai buscar. Thiago, cínico por completo. Novamente, Carla se levanta e o segue até a cozinha. Ela sussurra, ele apenas fala:
- O que significa esse convite? – pergunta Carla.
- Só pra te mostrar. Mostrar você pra ela. Eu pra ele, normal.
- Normal? Que é que tem de normal isso?
- Ué, a gente não se conhece? Acho normal te convidar pra fazer alguma coisa fora do trabalho.
- Com meu marido e sua esposa?
- Se fosse tão duro assim pra você, era só ter recusado o convite.
- Ah... mas fiquei curiosa.
- Com o quê?
- Queria ver como era aqui, vocês dois juntos.
- Pra quê? – ele ri, como se estivesse debochando.
- Curiosidade mesmo... sei lá. E queria ver você – ela sorri com aquele típico rosto reminiscente que sempre faz quando quer tirar algo. Mas ele apenas lhe dá o copo.
- Oh, a água.
- Acho que você não bate bem – diz decepcionada, sem retribuições carinhosas.
Ele dá de ombros.
Thiago mantém a postura ilesa com sucesso, aí desliga a panela do arroz e depois arruma a mesa. Flávia desliga a televisão e põe um som baixinho, Tim Maia Racional, o Volume Dois, Carla não seria capaz de escolher isso, pensou Thiago. As travessas sobre a mesa, todos a postos. Garfadas depois e todo mundo elogia. Carla não seria capaz de cozinhar assim, pensou Thiago mais uma vez.
Cada um repete o prato e acabam rapidamente com a comida. Agora se soltam mais, falam de Tim Maia e Cultura Racional e comida e vontade de viajar e essas coisas que ligam todo mundo com qualquer um perdido num jantar ou coisas do tipo. Tudo vai bem com as trufas na mesa e o vinho na cabeça. A simpatia de Flávia, o jeito engraçado de Thiago à vontade em sua própria casa. Sandro parece realmente estar gostando de ter saído de casa. O acolhimento daquele casal é quase tocante, julga ele no exagero da bebedeira, enquanto escuta o anfitrião falar sobre sua viagem ao Chile no início do ano. Por outro lado, Carla, numa infeliz paranoia, acredita estar ficando para trás mais e mais, tem a impressão de que não acompanha Flávia em todas as suas qualidades e conforto; permanece contida, mas continua com um sorriso esticado escondendo tudo, pelo menos ela se acha bem mais bonita. No fundo só é quase perua, e ela sabe disso.
Já tudo mais leve e brando após enxugarem as três garrafas de vinho. Todos levemente bêbados. E é esse o intuito de Thiago, deixar todo mundo bastante vulnerável. Ele apela para as cervejas e ainda traz uma garrafa de cachaça e a outra de vodca que trouxeram. Depois oferece caipirinhas, diz que é uma de suas especialidades. Ninguém toca nas cervejas, caipirinha de vodca para os quatro.
Tim Maia Racional Volume Dois pela terceira vez. Aumentam o som. Agora estão bêbados mesmo e quase toda a formalidade se esvai. Carla até brinca com Flávia, até esquece da posição defensiva que vinha cultivando sentada à mesa. Já Thiago prossegue a noite se precavendo à sua maneira, fica no sofá comendo o resto do queijo da bandeja observando os três bebendo mais e se acabando de rir por nada, dançando “O Caminho do Bem” e cantando tortuosamente, sem saberem a letra de música nenhuma. Até Sandro decide falar mais, e admite:
- Olha, eu assumo que quase decidi não vir... ia estragar tudo – e ri emitindo um timbre inesperado e agudo.
- Ia mesmo, ia mesmo... – repetem os outros três, quase em coro, como que para abafar aquela risada feia.
- A gente quase não sai assim, pra casa dos outros... né, amor? – e coloca a mão na cintura da mulher, que responde balançando a cabeça afirmativamente. – A gente também não é de beber muito, né? Não queria incomodar...
- Imagina. Fica à vontade! – diz Flávia.
- Obrigado, obrigado! – Sandro levanta o copo vazio com se estivesse propondo um brinde. Depois põe um dedo de vodca pura no copo e ri daquele jeito mais uma vez.
- E eu que achei estranho o Thiago chamar vocês pra cá assim, do nada. Nunca tinha me falado de vocês.
Carla, com muita boa vontade e como se quisesse acabar com o resquício de tensão de uma vez por todas, pergunta mais ou menos na inocência, ou na burrice, da bebedeira:
- Verdade, Thiago, verdade... Você tá muito quieto aí! Conta pra gente o motivo desse jantar.
- Motivo? Não sei o motivo. É coisa que qualquer um faz de vez em quando, né?
Flávia cessa Tim Maia, procurando outro som. Curiosamente, apagam todos os ruídos da sala. Thiago pensa bem, mas rápido, e fala:
- Na verdade é porque a Carla me deve um real.
Os três choram de rir. Flávia, assustadoramente efusiva, se rende, caindo no chão; Sandro, encostado na parede, abre um sorriso de ponta a ponta segurando um copo de cerveja trêmulo; Carla dá gargalhadas com um ar de agonia e desespero, como se já estivesse se punindo internamente pela besteira e por aquilo que acabara de fazer aquele filho da puta de dizer. Thiago apenas observa o estado de todo mundo. Flávia retoma as forças e se levanta, percebe o marido com um ar quase soturno.
- Você tá falando sério? – ela pergunta.
- Claro.
- Mas o que tem de tão importante nisso?
- Acontece que apostamos – agora Carla fica alerta, perceptivelmente aflita. Ele retoma o fôlego e, finalmente transparecendo a embriaguez, prossegue. – Um dia desses, ela apostou comigo que eu não tinha coragem de dizer pra mim mesmo que não quero mais certas coisas.
- Certas coisas? – repete Flávia – Que porra de conversa esquisita – agora em tom bastante sério.
- Não, eu não disse isso, seu doido! – retruca Carla, meio ruborizada, tentando manter a leveza.
- Nessa semana... – Carla puxa seu braço, tentando impedi-lo de falar – não, agora eu quero dizer pra eles aqui o que aconteceu, me deixa! – se livra dela com um pouco de rispidez e prossegue com a voz alcoolizada, comendo sílabas – Eu...
- Eu o que, cacete!?!
- Acontece que nessa semana a gente se beijou.
(...)
- Ah, mas que beleza! É só isso que tem pra falar? – Flávia pergunta com uma ironia amedrontadora após um rígido e demoroso espaço de tempo.  
- É, é só isso que eu tinha pra dizer.
Ele levanta os braços num gesto que poderia significar muitas coisas. Espera por algum diálogo dos piores, porém não vê a reação de ninguém, apenas um silêncio morto e doloroso. Talvez estivesse fazendo uma tempestade desnecessária, pura questão de perspectiva. Mas se sente na obrigação de continuar falando sem nenhuma direção ou cuidado:
- Acontece que acho que Carla queria que eu assumisse pra mim mesmo que eu quero botar tudo a perder e acontece que estou botando tudo a perder e decidi que estou arrependido e também decidi foder com toda essa merda dessa porra toda aqui... Não quero saber de mais nada disso e tanto faz a situação agora! É isso aí, tudo o que eu precisava dizer.
 Dez enfadonhos segundos depois ele cobra de Carla:
- E cadê a minha moeda?
Carla tira uma moeda de dentro da bolsa e joga com violência no rosto de Thiago, dramatizando a cena e ferindo sua bochecha de modo que em outra circunstância teria sido estranhamente engraçado. Flávia chora, Carla xinga tudo o que é possível de tudo o que é possível e Sandro, bêbado como um gambá fenomenal, volta a rir, sem ninguém entender sua reação. Dava pena.
- Por isso que veio com todo aquele fogo pra casa um dia desses, foi? – Carla baixa a guarda – Ai ai ai, menina, viu!
Bate amigavelmente no ombro de Thiago, que por sua vez se esquiva com medo de levar uma porrada na cara. Sandro pega a garrafa de vodca da mesa, “Cara, valeu, pode ficar com ela! Eu fico com o resto do que eu trouxe pra cá, fica tranquilo, você me fez um favor”, e sai sozinho. Depois se ouve os pneus cantando e uma longa comida de marcha antes de dobrar a esquina.
Por um momento, todos os três olham para baixo.
Flávia enxuga as lágrimas e some a embriaguez:
- Como é que fica isso?... Como você me faz preparar comida pra quem você quer comer?
Sem se preocupar em como fará para chegar em casa sem o carro, Carla corre até a porta ainda aberta e sai cambaleando num ziguezague deselegante sem a necessidade dizer tchau.
O casal fica ali, sem um olhar para a cara do outro. Falando bobagens até de manhã, na boa vontade de tentar encontrar uma saída.
Thiago nem se lembra mais daquele beijo, faz questão de apagar para sempre o contentamento que chegou a provar no flerte com a outra. “Como era suja”, pensa com pesar naquela moeda toda vez que percebe como é difícil reconstruir a felicidade com Flávia, que ainda é sua esposa com a condição de que não cozinhará sabe lá até quando e nada de “O Caminho do Bem” naquele lar.  
Nunca mais pisou naquela repartição sentindo-se vulnerável. Carla tomou outro caminho, para bem longe, e não se sabe mais quem ela foi ali. 

domingo, 6 de outubro de 2013

"Sobre Transações"


Conjunto cinza de moletom e chinelos. No meio do caminho ele vasculha o bolso de trás e nada tateia: esqueceu de trazer dinheiro, sonolento por demais. Volta para casa com uma rapidez inoportuna e enche a mão de um punhado de trocados que achou no aparador. É o suficiente. O matiz do dia é amarelado e feliz. De acordo com seu entusiasmo, passar por outubro sugere ansiedade. E neste mês, especificamente neste ano, a aflição é o dobro da habitual. Sendo assim, até seus trejeitos expõem a irrequieta sensação para si e para todos. É quase folga, detalhe que o faz sentir-se ingenuamente único e quase completo bem no íntimo. Assobia uma melodia do Neil Young buscando refrescar seu espírito, pois sabe que é dia 31 – terça-feira com cara de sexta, véspera da véspera do feriado de finados –, mas ainda precisa trabalhar. Tenta também com algum esforço recapitular o que sonhou, mas antes vem à mente a imagem do seu calendariozinho que fica na cabeceira da cama e que nesta manhã continha a seguinte frase: FORTUNA E PROSPERIDADE EXISTEM PARA QUEM ABRANGE, mas todo aquele bolo de moedas balançando no bolso rente à bunda dava cinco reais e setenta centavos, exatamente. Ironia. O outro lado da rua lhe chama atenção, pois seu ônibus 152 passa freando e emitindo uma algazarra mista de pausa e tralha metálica. Agora sabe que tem algo em torno de cinquenta minutos para fazer tudo o que tem que fazer e pegar o próximo a tempo e menos cheio. Mentalizando o assento que poderá estar vazio o legítimo bom humor enfim dá as caras e assim, cheio de perspectiva, entra na padaria e sente aquele cheiro de pão sendo assado. Apetite que lhe cutuca a barriga, a traquinagem fisiológica. Pede trezentos gramas de pão de queijo e um leite tipo B; quer também um café instantâneo, mas na hora de passar no caixa o dinheiro não dá e reclama com um resmungo voltado para si por não ter trazido a carteira. Põe o café de volta na prateleira, paga à mocinha vaidosa que masca chiclete. Dá para sentir o hálito de melancia; tudo é muito doce, nela, que cantarola uma música sertaneja que não faz par com o Only Love Can Break Your Heart dele. A mocinha repara no moletom, franze o cenho, desaprova a roupa com alguma palavra secreta e guarda entre os dentes a opinião e no caixa o dinheiro, o montante que contém justamente aquela moeda de um real. Valores miúdos, contatos cegos. Com o nariz permeado de pão semi assado e melancia, ele vai embora ainda bem humorado sem ter rememorado o sonho. Prorroga este pequeno prazer guardando-o para o trajeto do trabalho. Rapidamente, a mocinha dá de troco o prodigioso tesouro para um senhor que lhe pede um maço de cigarros light logo em seguida. Ele quer parar, mas não maquinou qualquer planejamento ou estratégia, portanto fumar seu primeiro cigarro do dia ainda não é doloroso. Naquele instante o que realmente o machuca é caminhar com aquele joelho incorreto alfinetando o apreço pelos ossos. Às 16h ele tem uma consulta com o ortopedista que analisará seu caso de osteoporose. Dependendo do quadro, ganhará quinze ou vinte dias de perna engessada: uma folga dentro da folga por já estar aposentado. Passa pela banca de jornal e observa as manchetes esportivas e nutre uma esperança nostálgica que consiste em seu alviverde revelar um novo Leivinha à nova geração. Mas sabe que o tempo é de marasmo, então volta ao joelho latejante e à sua mulher, que o espera pra tomar o café, que acabara de ser coado e adoçado. “Esqueci de pedir pra comprar um pote de margarina, tá acabando”, diz a esposa. Mas ele já colocou os pães na torradeira, “Pega o requeijão, não dá pra ficar saindo toda hora com esse negócio assim”, ele aponta para o joelho e ela bufa, mas consente segundos depois e arqueia as sobrancelhas. Parceira. Tomam o café silenciosamente enquanto a televisão da cozinha passa um acidente envolvendo um motociclista e um furgão amarelo que parece ser dos Correios. O cara da moto morreu. “Coitado”, ela diz, somente. Ele pragueja sobre o fato enquanto ela percebe o sol que faz: lavar a roupa. Por coincidência ou truque do inconsciente acostumado com a rotina, o caminhão da água de lavadeira grita gradualmente água lavadeira. Ele está para cruzar a esquina. A esposa traga com pressa o resto do café com leite. “Me arruma um dinheiro pra eu comprar umas coisas com o homem”. Cumprimenta o rapaz que está na caçamba rodeado de mangueiras e garrafas pet multicoloridas, depois pede um litro de amaciante com fragrância de jasmim e dois reais de sabão de coco, o que dá seis barras. O cheiro dos produtos, as cores químicas e o megafone imperativo trazem à tona uma indizível sensação remota e macia, para ela. Para ele, que ainda está na cozinha segurando a xícara com dois dedos envolvendo a alça e imaginando a imprudência do motociclista, foi o desapego de mais um acanhado trocado discretamente vivo. Um pequeno e calado grupo de donas de casa vai se amontoando no caminhão. “Me dá isso, me dá aquilo”. Tanto brigado, brigada, obrigado você. O ônibus 152 menos vazio ronqueja distante, o sertanejo de melancia se cala como se fosse nada. Aquele um real se dispersa e para em alguma mão feminina. Houve uma prolixa confabulação, um sutil contato. Ninguém notou.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

“Django Livre” (2012)


Ao assistir Django Livre, o novo filme de Quentin Tarantino, qualquer espectador mais analítico chega à conclusão de que finalmente seu modo de contar histórias atingiu uma maturidade essencial, ou melhor, mais fluência no sentido de apresentar um produto homogêneo em estética, enredo e entretenimento.

No entanto, para os entusiastas da obra do diretor, falar de qualidades como essas sempre pareceu muito óbvio, mas o fato é que desde Bastados Inglórios (2009), ou até um pouco antes, seu estilo tornou-se mais aceitável até para os mal acostumados com muita violência. Isso porque os temas que ele vem escolhendo são tão interessantes quanto a roupagem única que o fez um ídolo pop. Afinal, quem nunca imaginou ao menos uma vez algo similar à uma vingança judia contra o nazismo sendo concretizada ou um ex-escravo que mata donos de fazendas e afins?

Em Django Livre temos um escancarado exemplo de persuasão artística e constante repaginação. Por isso é tão difícil para aqueles que se interessam por cinema escapar da teia desenvolvida por Tarantino, que tem como característica conseguir ser apelativo em todas as direções possíveis e convencer com seu ponto de vista nada ortodoxo. No filme, desde o início, é muito fácil reconhecer a união do perfil de Sérgio Leone (diretor de clássicos como Três Homens em Conflito, de 1966) e o alternativo dos filmes de baixo custo. Para exemplificar esse incessante casamento de gêneros, já basta a trilha-sonora, repleta de surpresas e de originalidade casa o infalível spaghetti western de Ennio Morricone com 2Pac e até Richie Havens com a histórica versão de “Freedom” ao vivo no Woodstock.

Mesmo que charmoso no papel, esse minucioso trabalho de costurar retalhos só ganha corpo de fato graças à belíssima atuação do elenco. A começar por Christoph Waltz, que interpreta Dr. King Schultz, um astuto caçador de recompensas, muito mais “sensível” e tão carismático quanto o coronel Hans Landa, personagem interpretado pelo próprio Waltz em Bastardos Inglórios. Jamie Foxx é Django, o ex-escravo e parceiro de Schultz, que comprou a liberdade do negro com a condição de que o ajudasse a encontrar três irmãos assassinos.

Após concluída a missão, Schultz libera Django, mas mesmo assim decidem serem parceiros no ramo. Ao mesmo tempo em que prossegue como caçador de recompensas, Django tem como objetivo principal encontrar e resgatar sua esposa Broomhilda (Kerry Washington), uma escrava que ele não vê há anos. A busca de Django e Schultz leva-os a Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o dono de uma fazenda chamada Candyland, famosa pela brutal hostilidade e o treino intensivo de escravos locais usados para a luta. Ao entrarem na propriedade com identidades falsas, Django e Schultz chamam a atenção de Stephen (Samuel L. Jackson), um velho escravo de confiança de Candie, e é aí que a trama fica mais interessante.

DiCaprio está perfeito como o excêntrico e cruel proprietário de Candyland. Com tantas boas atuações no currículo, vale dizer que poucas vezes se viu o ator atingir uma intensidade como em Django. Fica fácil enxergar através de DiCaprio uma das especialidades mais fundamentais de Tarantino: dirigir um ator conduzindo sua personagem a uma qualidade de carisma extremo, pouco importando o caráter do mesmo. O impagável Stephen, de Samuel L. Jackson, que tem aversão aos próprios negros, também faz parte de um elemento básico da filmografia do diretor, sendo aquele sujeito mau-caráter que extrapola o contraditório a ponto de parecer cômico. Quanto a Broomhilda de Kerry Washington, uma bela escrava que fala alemão, apesar de ser o motivo central da trama, recebe menos destaque que os demais, talvez por manter em meio ao absurdo (e não tão improvável assim) mundo western de Tarantino um sinal de sobriedade em comparação às demais personagens.

Quanto à violência, pode-se dizer que este filme é, se não o mais bruto dentre todos os de sua obra, pelo menos aquele que mostra uma carga mais densa de requintes de crueldade. O mesmo se dá com a sensação de vingança, similar ao sentimento experimentado em Bastardos Inglórios e também nos Kill Bill. Mas a diferença entre os demais é que Django Livre reafirma ainda com mais apelo uma inevitável força artística.

Gostar ou não gostar de filmes como Django Livre é uma questão sensível e inútil, mas é certo que o “modo Tarantino” de fazer filmes vem provando ao longo dos anos que funciona como entretenimento e traz consigo uma importância como obra de arte muito além do superficial sentimento de gratuidade.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

David Bowie – Low (1977)


Mesmo que a icônica capa de Aladdin Sane (1973) tenha sobrevivido intacta e soberana no imaginário da cultura pop e levado a personagem de David Bowie quase que à banalidade em termos visuais, o legado do britânico ecoa ainda mais forte por conta de seu extraordinário conteúdo musical. Se por algum motivo a incessante busca por sintéticas texturas sonoras entra e sai de moda entre bandas de rock e de outros gêneros, muito disso é fruto das sugestões apontadas por Bowie e sua essencial “Trilogia de Berlim”, sobretudo o álbum Low, de 1977.

Parece redundante hoje em dia destacar a importância do britânico para a música popular, mas fato é que neste mês Low fez 36 anos de aniversário e permanece ileso e incontestavelmente rico em proposta estética. Produzido pelo próprio Bowie e seu parceiro de longa data, Tony Visconti, Low abriu um novo caminho na carreira do músico. Se antes já havia causado espanto geral por flertar facilmente com pop, soul e glam rock, a partir de 1977 passaram a vê-lo como um artista desafiador, que expandia os limites sugerindo à música o uso expansivo da artificialidade sonora.

Com o objetivo maior de largar seu vício em cocaína, Bowie viveu modestamente na Alemanha Ocidental, em Berlim, recluso e longe dos holofotes. Como forma de ocupação, em meados de 1976 chegou a produziu o álbum solo de seu amigo Iggy Pop: The Idiot. Logo ali já podia ser notada uma pitada do que David estava preparando.

Fortemente influenciado pelo som de grupos como NEU! e Kraftwerk, Bowie reuniu uma série de músicos como Carlos Alomar (guitarras), George Murray (baixo), Ricky Gardener (guitarras) e Brian Eno (sintetizadores) para recriar a seu modo a atmosfera dessas bandas. O resultado foi Low, um disco metade instrumental, metade pop experimental e distinto por completo. O curioso é que alguns atribuem a Eno importância igual ou maior que o próprio Bowie na concepção de Low. Polêmicas à parte, certamente o modo de criação do ex-Roxy Music foi uma grande influência, tanto que o próprio alega que participou da produção do LP e não foi creditado.

Não é que bandas do rock progressivo, expoentes do krautrock ou o próprio Eno com sua ambient music não houvessem sugerido aquilo até então, mas o fato surpreendente (além do resultado final do LP) foi a abrupta ruptura de David Bowie, que há um ano antes vinha fazendo soul e mesmo assim assumiu o eletrônico sem quaisquer restrições.

Outro fator que contribui para a notoriedade de Low é a incessante capacidade de algumas de suas canções se ajustarem naturalmente ao presente momento, como no caso de “A New Career in a New Town” ou “Breaking  Glass”, que com seus quase dois minutos representa o que inúmeras bandas contemporâneas tentam recriar direta ou indiretamente. “Sound and Vision” e “Be My Wife”, mesmo sem seguirem a fórmula linear de canção pop, traçaram no panorama musical da época o que viria a ressoar com muita força em conjuntos de pós-punk e new wave do início dos anos 1980.

Todas as onze composições são capazes de levar o ouvinte a uma interessante experiência sensorial, mas de fato as últimas quatro faixas de Low, “Warszawa”, “Art Decade”, “Weeping Wall” e “Subterraneans”, verdadeiros exemplos de ambient music, carregam peso maior do status de obra-prima atribuído ao LP. Qualquer um acostumado apenas com as irresistíveis facilidades do Camaleão do rock (coisas como “The Jean Genie”, “Rebel Rebel” ou “Changes”) passará pela primeira vez pelo desfecho de Low e a partir de então encarará Bowie de maneira absolutamente diferente.

Com todo o reconhecimento obtido anos depois, a desconfiança da RCA (então gravadora do músico) para com o disco virou mero detalhe. Das onze faixas, seis eram basicamente instrumentais e a empresa teve sérias dificuldades em encontrar na obra alguma “música de trabalho”. No final das contas, “Sound and Vision” foi a escolhida como single.

O disco saiu em janeiro de 1977. Inicialmente seria lançado em dezembro de 1976, porém a RCA cancelou com a justificativa de que não via Low com um potencial presente de Natal.

Seria Low o ápice criativo de Bowie? O próprio afirma que sim, e até chegou a tocá-lo na íntegra em 2002, num único show em Londres. Mas fato é que, gostando ou não gostando, ao escutar o álbum todo não há como relevá-lo e não perceber nele uma infinidade de outros artistas.

Low (1977)

Lado A

"Speed of Life" (Bowie) – 2:46
"Breaking Glass" (Bowie, Dennis Davis, George Murray) – 1:52
"What in the World" (Bowie) – 2:23
"Sound and Vision" (Bowie) – 3:05
"Always Crashing in the Same Car" (Bowie) – 3:33
"Be My Wife" (Bowie) – 2:58
"A New Career in a New Town" (Bowie) – 2:53

Lado B

"Warszawa" (Bowie, Brian Eno) – 6:23
"Art Decade" (Bowie) – 3:46
"Weeping Wall" (Bowie) – 3:28
"Subterraneans" (Bowie) – 5:39
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