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quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Pop Barroco

Se a música radiofônica da segunda metade do século XX – sobretudo o Rock – passou a ser mais inventiva e ao mesmo tempo levada mais a sério, deve-se muito a uma vertente denominada Pop Barroco.

Este estilo emergiu em meados dos anos 1960, quando produtores e compositores beberam da fonte da música erudita e trouxeram ao Rock ‘n’ Roll elementos orquestrais. O resultado foi provavelmente a primeira amostra de que um som feito basicamente pra adolescentes poderia soar mais rico e intenso. 

Competição criativa

Pode-se dizer que um dos alicerces do Pop Barroco é a canção “Be My Baby”, interpretada pelo grupo feminino The Ronettes e composto, produzido e arranjado por Phil Spector. Lançado em 1963, o sucesso apresentava uma sonoridade diferenciada por conta da chamada Wall of Sound, técnica de gravação desenvolvida por Spector. O segredo consistia em juntar no estúdio uma infinidade de músicos (algo exagerado como quatro guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, piano, órgão, conjunto de cordas etc.) pra tocarem ao vivo a canção, sem edições. O efeito final era uma massa sonora que soava mais vigorosa do que as demais músicas do rádio.

E foi esse jeito peculiar de gravar, essa mistura de ingredientes inusitados no Rock que fez a cabeça de Brian Wilson, então baixista, produtor e compositor do The Beach Boys. A banda foi mudando gradativamente de direção estética. No single “When I Grow Up (To Be A Man)”, de 1964, nota-se a busca de Wilson por novas sonoridades pelo uso de um cravo. Nos álbuns posteriores, The Beach Boys Today! e Summer Days (And Summer Nights), a sofisticação vai ganhando mais corpo e a genialidade de Wilson começa a dar as caras.

Enquanto isso, os Beatles também começaram a alargar suas próprias fronteiras. Em Help! (1965) já havia um presságio de novos tempos com “Yesterday”, nitidamente mais madura que qualquer outra canção gravada pelo quarteto anteriormente. Mas no mesmo ano é lançado o LP Rubber Soul, este sim com um grupo realmente mais complexo e ousado. Somente a cítara de George Harrison em “Norwegian Wood” (instrumento até então nunca usado no Rock) já seria um bom motivo pra considerar Rubber Soul criativo e pioneiro em alguma coisa, mas Brian Wilson – de novo ele – enxergou ali algo ainda maior e absorveu o trabalho dos ingleses como um desafio, sentiu a necessidade de superá-los com algo ainda mais denso. E foi aí que veio Pet Sounds (1966) e o começo de uma batalha artística que renderia alguns dos maiores clássicos do Rock.

Brian Wilson parou de excursionar com o The Beach Boys. Com isso passou a se dedicar somente às composições e gravações enquanto o restante do grupo tocava pelo mundo. Pet Sounds somou mais de cinco meses de trabalho liderado por Wilson, que conseguiu captar o espírito juvenil e ao mesmo tempo uma sonoridade riquíssima em detalhes. Utilizando tudo o que fosse possível (de violoncelos e vibrafones a buzinas de bicicleta), o álbum é uma obra de arte sem precedentes. “God Only Knows” é considerada por muitos – incluindo Paul McCartney – como a melhor canção Pop de todos os tempos.

Os Beatles também vinham se dedicando mais às gravações do que às apresentações, tanto que, em 1966 anunciaram que passariam a trabalhar somente em estúdio. Esta atitude somou frutos que viriam a ser considerados os pontos altos da carreira do grupo, dentre eles, o LP Revolver, do mesmo ano, e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967. Neste período a banda ditou as regras da cultura Pop, e “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane”, “Eleanor Rigby” e “A Day in The Life”, que traziam a abordagem do Pop Barroco, se transformaram em referência do que podia se considerar moderno na música.

Brian Wilson bem que tentou fazer algo num nível ainda acima, mas sucumbiu às drogas e à loucura. Começou a gravar o LP Smile em 1967, mas abandonou o projeto, que só viria a ser lançado em 2004 como projeto solo. Em 2011, para comemorar os 50 anos dos Beach Boys, saiu o Smile Sessions, com gravações da época. .

Contemporâneos

Houve uma infinidade de grupos seguindo essa tendência no período dos anos 1960, medalhões como os Rolling Stones, por exemplo. Apesar da sonoridade calcada no Blues dos primeiros álbuns, a banda investiu em alguns momentos no Pop Barroco. Apesar de o flerte com o erudito não ter perdurado, “Lady Jane”, “Ruby Tuesday” e “She’s a Rainbow” são músicas importantes para o subgênero.

O The Left Blanke, de Nova Iorque, também foi um expoente crucial pra concepção do estilo. O compositor e tecladista da banda, Michael Brown, foi muitas vezes comparado a Lennon, McCartney e Wilson por conta de seu talento em fazer melodias sofisticadas e da ambição de introduzir elementos mais sérios na música Pop. Muita gente considera o primeiro álbum, Walk Away Reneé/Pretty Ballerina (1966), como o exemplo mais bem acabado da fusão do Pop com o erudito.   

Bandas como The Zombies aprimoraram o estilo seguindo os passos de Pet Sounds e Sgt. Peppers. O grupo britânico estava pra se desfazer quando juntou os cacos e fez um LP emblemático. Odessey and Oracle (1968), foi preparado sem a pressão da gravadora por algum sucesso, detalhe que acabou sendo resolvido naturalmente, pois “Time of The Season” agradou ao público em geral. Dada essa liberdade, o grupo pode abusar o quanto quisesse do experimentalismo, e o resultado foi um disco aclamado pela crítica até hoje. Odessey and Oracle, por fim, selou a dissolução do The Zombies, que foi coincidentemente seu momento mais prolífero.

Um caso similar à situação do The Zombies e que também deu bastante certo foi terceiro disco do grupo norte-americano Love. A banda liderada por Arthur Lee já havia conseguido algum sucesso na cena com o álbum Da Capo (1966), mas Forever Changes (1967) a música atinge outro patamar. O Love passava por um período de brigas internas e ameaças de dissoluções. Lee, que depois de uma viagem de LSD previu sua morte, estava determinado em deixar suas últimas palavras em vida (daí o título Forever Changes), e estimulou o grupo a gravar o álbum. São onze músicas coesas, impecáveis. Pode-se dizer que “Andmoreagain”, “You Set The Scene” e “Alone Again Or” são sinônimos de Pop Barroco. Os arranjos de cordas e metais permeiam quase todo o LP e complementam a banda de modo tão satisfatório que não dá pra separar uma coisa da outra.    

No decorrer dos anos, uma infinidade de artistas buscaram fazer esse contrapeso do moderno com o clássico: Moody Blues, Serge Gainsbourg, Pink Floyd, Scott Walker, Nico, Nick Drake, The Hollies, Sagittarius, The Free Design, Simon & Garfunkel...

No Brasil

Em 1966, o The Jordans, grupo instrumental brasileiro, gravou “Tema de Lara”, do filme Doutor Jivago, com arranjos arrojados em comparação com o conceito do Rock brasileiro. Um ano depois, a banda tocou na Europa, absorveu as influências e na volta gravaram “Walk Away”, do The Left Blanke, que em português ficou “Alguém Chorou”.

Por aqui, o estilo foi um forte aliado ao som dos Tropicalistas. A influência de Sgt. Peppers no LP coletivo Tropicália ou Panis et Circesis (1968) está escancarada, basta conferir “Baby” e “Enquanto Seu Lobo Não Vem”. O nome por trás disso é Rogério Duprat, maestro arranjador que trabalhou com a maioria dos artistas do movimento e aproximou um pouco mais os brasileiros das tendências internacionais. Dentre os Tropicalistas, os Mutantes se destaca como o grupo mais fincado nessa proposta orquestral, principalmente nos seus três primeiros trabalhos de estúdio.

Até Ronnie Von, antes mero galã das garotinhas, lançou em 1969 um emblemático álbum homônimo com excelentes canções de Pop Barroco, que na época foi mal compreendido pelo seu público acostumado com canções fáceis.

Legado

Dá pra dizer com tranquilidade que muitos subgêneros não existiriam sem o Pop Barroco. Sua importância está intacta e perdura até hoje por meio de uma porção de filhos e netos bem sucedidos, dentre eles, figuras do Rock Sinfônico como Yes e ELP, o chamado Art Rock do Queen em A Night at The Opera (1975), a Neopsicodelia do Echo & The Bunnymen em Ocean Rain (1984), o Rock alternativo do Smashing Pumpkins, Arcade Fire e The Last Shadow Puppets. É muita coisa. É quase impossível vislumbrar o Pop sem 1966 e 1967.

Para entender o Pop Barroco, recomendo escutar as seguintes músicas:

“Pretty Ballerina” – The Left Blanke
“Still You Believe in Me” – The Beach Boys
“Out Of Time” – The Rolling Stones
“A Rose For Emily” – The Zombies
“It’s Raining Today” – Scott Walker
“For No One” – The Beatles
“Fly” – Nick Drake

Por: Victor José

sábado, 28 de abril de 2012

O que de fato é Power Pop?

Há pouco tempo, muito se ouviu a respeito de uma vertente do Rock chamada Power Pop. O que nem todo mundo sabe é que este estilo já é bastante antigo, um tanto quanto obscuro, mas altamente influente.

De certa forma, seu significado acabou se perdendo no tempo. O verdadeiro Power Pop nada tem a ver com o chamado Power Pop que dizem que existe hoje. Por mera coincidência, utiliza-se o termo pra definir o novo ‘Rock Colorido’ que bandas como Restart e Cine andam fazendo, porém o estilo corresponde a bandas como Big Star (foto acima), The Raspberries, Flamin’ Groovies (foto abaixo) e Badfinger, expoentes da década de 1970 que mais tarde influenciariam bandas e cantores importantes como R.E.M, Teenage Fanclub (também Power Pop), Elliott Smith, Jeff Buckley, e The Replacements.

Início

Sabe-se que o termo foi utilizado pela primeira vez em 1967 por Pete Townshend, guitarrista e compositor do The Who, durante uma entrevista quando tentava definir o som que sua banda fazia: “Power Pop é o que nós tocamos, o que The Small Faces costuma tocar e é também o tipo de Pop que The Beach Boys tocou em seus dias de 'Fun, Fun, Fun', o qual eu prefiro”. Somente alguns anos depois a sonoridade do estilo seria definitivamente estabelecida.

O Power Pop pode ser caracterizado como um revival dos anos 1960 com um pouco mais de potência. Praticamente todas as bandas do estilo têm como influência as melodias e arranjos de algumas bandas mais pesadas da British Invasion dos anos 1960 (The Kinks e The Who) e também o Folk Rock americano (The Byrds e The Lovin’ Spoonful). Ao somar alguns riffs de guitarra grudentos, como “Day Tripper”, dos Beatles e “Satisfaction”, dos Rolling Stones, você tem uma banda de Power Pop.  

Bandas seminais

A primeira banda a ter alguma visibilidade com esta proposta foi o Badfinger. Canções de fácil audição repletas de harmonias vocais com um toque Beatle e de guitarras levemente distorcidas. Curiosamente, o grupo inglês contou com uma grande colaboração dos Beatles. Seu primeiro álbum, “Magic Christian Music”, de 1970, foi lançado pela Apple, selo dos Beatles, e o maior sucesso do álbum, “Come and Get It” – quarto lugar na lista de vendagem da Grã-Bretanha – foi composto por Paul McCartney. Além disso, o Badfinger participou de gravações de álbuns de George Harrison (“All Things Must Pass”, 1971), Ringo Starr (“Ringo”, 1971) e também John Lennon (“Imagine”, 1971). O Badfinger é talvez a banda mais famosa do Power Pop, e muito de seu sucesso se dá devido à música “No Matter What”, um clássico do Rock que de vez em quando toca no rádio. Chegaram a ser a banda genuinamente britânica a ter a melhor vendagem desde os Beatles.

Já a banda mais influente e que melhor sintetiza o estilo é Big Star. Surgida em Memphis (EUA), em 1970, o grupo liderado pelos compositores Alex Chilton – então ex-membro do The Box Tops – e Chris Bell fazia um som tão acessível quanto o Badfinger, mas seu selo, o Ardent Records, por ser especializado em música Soul e R&B, encontrava dificuldades ao divulgá-los, então o Big Star não fez o menor sucesso nos anos 1970. Seu primeiro álbum, “#1 Record”, de 1972, é uma pérola pouco conhecida da história do Rock, assim como seu sucessor, “Radio City”, de 1974 e já sem Chris Bell na banda, que acabou falecendo em um acidente de carro em dezembro de 1978. Este último contém o hino que define o Power Pop: “September Gurls”. Em 1975 o Big Star lançou outro álbum, desta vez mais experimental, o “3rd”, e encerrou suas atividades. Anos depois surgiram bandas como R.E.M, The Posies e Teenage Fanclub que se diziam fãs incondicionais do Big Star, o que colaborou ainda mais para a banda atingir status de lenda cult. Durante um curto período dos anos 2000, a banda retornou aos palcos e em 2005 lançou o despercebido “In Space”, e em seguida o grupo definitivamente se dissolveu. Paralelamente ao Big Star, tanto Chris Bell quanto Alex Chilton – falecido em março de 2010 – possuem carreiras solo bem aclamadas. Recentemente, foi lançado um documentário sobre a banda, intitulado “Nothing Can Hurt Me”.

Outro expoente que define bem o estilo é o grupo The Raspberries, que possui um repertório de canções consistentes, algumas bastante adocicadas, e que nos agrada na primeira audição. Também de 1970, a banda norte-americana conseguiu um relativo sucesso no início da carreira, principalmente com a música “Go All The Way”, que alcançou o quinto lugar na Billboard Hot 100, em 1972. Nas canções é possível reconhecer influências de algumas bandas britânicas antigas como The Hollies e Gerry & The Pacemakers. The Raspberries manteve uma carreira de relativo êxito até seu fim, em 1975. Seus quatro álbuns de estúdio foram bem aclamados pela crítica da época, principalmente o segundo, “Fresh”, de 1972, tido como um clássico do Power Pop. Pessoas como Bruce Springsteen, Tom Petty, Axl Rose e Paul Stanley já citaram a banda como uma influência.

Continuidade

Já nos anos 1980 e 1990, a influência exercida pelo Power Pop pode ser percebida em bandas que faziam outro estilo de Rock (vide The Romantics, The Undertones, The Replacements e o já citado R.E.M.) e também era possível revisitá-lo em novas bandas do segmento, como o The Knack, Teenage Fanclub e Cheap Trick.

O que pode ser notado em toda a trajetória do estilo é que as bandas mais famosas – com exceção do Big Star – alcançaram um sucesso isolado com algumas canções, fazendo com que suas melodias acabassem se tornando mais famosas do que os próprios grupos em si. Jamais chegaram ao patamar das grandes bandas, o que fez com que a nomeação Power Pop acabasse perdendo um significado mais abrangente. Mas para quem de fato conhece, o Power Pop é uma categoria prolífera e digna do mais alto escalão do Rock ‘n’ Roll.



Aí está uma seleção de dez músicas para entender melhor o som do Power Pop:

1-    Big Star - “September Gurls”
2-    The Raspberries - “Tonight”
3-    Badfinger - “No Matter What”
4-    The Knack - “My Sharona”
5-    Cheap Trick - “Surrender”
6-    Teenage Fanclub - “Star Sign”
7-    Todd Rundgren - “Couldn’t I Just Tell You”
8-    Flamin’ Groovies  - “Shake Some Action”
9-    Chris Bell - “I Am The Cosmos”
10-  Off Broadway - “Stay in Time”
       Menção Honrosa: Big Star - “Back Of A Car”

Por: Victor José
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