quarta-feira, 27 de junho de 2012

Joni Mitchell - "Blue" (1971)


Recentemente escutei Blue (1971) três vezes seguidas e não encontrei um erro sequer, nada fora do lugar, nenhuma nota mal executada. A qualidade das faixas sempre me impressiona. Isso sem contar toda aquela sensibilidade em ebulição durante seus 35 minutos e poucos. São canções que emocionam facilmente qualquer um disposto a relaxar e curti-las, seja pelas melodias, seja pelas letras ou por qualquer outro detalhe. Analisando a esfera da música folk/pop rock, é muito justo afirmar que pouquíssimos artistas alcançaram excelência semelhante à deste álbum.

Naquela época de sua carreira, Joni Mitchell passava por mudanças significantes. Por conta do grande sucesso alcançado nos anos anteriores ao Blue, a cantora, sempre avessa à grandes públicos, havia decidido parar de se apresentar por um tempo. Além disso, ela havia terminado um longo relacionamento com Graham Nash, do grupo Crosby, Stills, Nash & Young e ex-The Hollies. Com isso, ela tirou umas férias e foi à Europa para acalmar os ânimos, e foi lá que ela escreveu quase todas as canções do álbum.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone em 1979, ela disse: “Blue foi um momento decisivo de muitas maneiras. No Blue, quase não há uma nota desonesta nos vocais. Naquela época da minha vida, não possuía defesas pessoais. Me sentia como papel celofane num maço de cigarros. Sentia como se não tivesse segredos do mundo, e não pudesse fingir que minha vida era forte. Mas a vantagem disso na música era de que não havia defesas ali também”.

É justamente essa vulnerabilidade que seduz o ouvinte logo na primeira audição. Em Blue, Mitchell interpreta temas reflexivos como relacionamentos, solidão e anseios pessoais de modo tão honesto que passamos a aceitar a melancolia como um ingrediente extremamente agradável.

Apesar de vez ou outra conter nas faixas alguns músicos a mais (dentre eles, James Taylor nos violões), Blue é basicamente a voz de Joni Mitchell acompanhada por seu piano, violão ou às vezes um instrumento chamado dulcimer. O disco é essencialmente folk, mas nota-se também uma pitada de jazz nas estruturas musicais, detalhe que culminaria anos depois em álbuns com forte sonoridade fusion, como o Hejira, de 1976.

Faixas

O disco começa com “All I Want”, perfeita para um início. Aqueles acordes de dulcimer misturados com a melodia entram na cabeça e custam a sair. A música, que como sugere o título trata de anseios pessoais, também parece ser um relato de alguém buscando uma identidade.

Depois vem a ingênua “My Old Man”. Apoiada pelo piano, Mitchell fala dubiamente sobre seu antigo relacionamento com Graham Nash, de modo que os versos exaltam os momentos em que ele esteve presente e o estribilho cai para o vazio de estar sozinha.

Sabe-se que “Little Green” foi composta em 1967, portanto fica sendo provavelmente a canção mais antiga do álbum. Mesmo estando um pouco distante das demais composições em relação a tempo, a música, a mais folk dentre todas, se encaixou perfeitamente à atmosfera de Blue. Por outro lado, “Little Green” contém a letra mais subjetiva do disco, que permite diferentes interpretações.

Já em “Carey” Mitchell está acompanhada de uma banda acústica e vocais fazem harmonias, a alegria dá as caras no tom desta faixa com jeito de road movie. “Carey” fala sobre despedidas de maneira leve. É evidente nesta composição a influência de suas férias na Europa quando ela canta: “Maybe I'll go to Amsterdam, or maybe I'll go to Rome”.

“Blue, songs are like tattoos”. Essa frase justifica toda a densidade do disco. O tal Blue que ela cita é David Blue, um expoente compositor de música folk da cena de Greenwich Village, em Nova Iorque. A canção pode ser interpretada como um ponto de vista da desesperança que assolou grande parte daquela geração no pós-hippie. Piano e voz fecha o lado A.

A honesta “California” talvez seja a melhor canção sobre esse estado norte-americano. Segue a linha nostálgica e road de “Carey”, além da banda acústica que a acompanha e o tom levemente descontraído.  

A batida com afinação aberta de “This Flight Tonight” lembra bastante o que ela vinha fazendo anteriormente em sua carreira, como no hit “Big Yellow Taxi”. Dá a impressão de que esta seja a faixa mais descompromissada de Blue, o que dá uma sensação de respiro entre toda a emoção das demais músicas. Curiosamente, o grupo escocês Nazareth regravou alguns anos mais tarde “This Flight Tonight” de modo completamente distinto, versão que vale a pena ser conferida.

A partir de “River”, chegamos à parte mais dolorosa de Blue. “River” é atemporal, sua melodia é irresistível e funcionaria para qualquer época após seu lançamento. Dizem que nesta faixa, Joni Mitchell quis abordar sobre seu desconforto com o sucesso e a vontade de querer escapar da fama.

A preferida de muita gente, “A Case of You” permanece sendo um dos maiores clássicos da carreira de Mitchell. Regravada por uma série de cantores como Prince, Tori Amos e James Taylor (que participou das gravações), a música é explicitamente voltada para seu relacionamento com Graham Nash e escancara a habilidade da compositora em escrever letras capazes de proporcionar ao público uma identificação imediata com algum momento da vida.  

Blue encerra com a melhor performance de Joni Mitchell no álbum. “The Last Time I Saw Richard” é a mais difícil de escutar, é preciso passar por todas as outras para chegar a esta obra-prima e assimilá-la bem. Sua letra corrida, novamente acompanhada apenas por piano e voz, parece ser sobre alguém caindo na real e tendo que mudar de postura para encontrar a felicidade. É bem claro que tudo foi feito para si mesma.

Repercussão e legado

Blue foi um grande sucesso de crítica e público, chegando a vender mais de um milhão de cópias. Nas paradas de sucesso, Blue alcançou o 15º lugar na Billboard e o 3º nas paradas inglesas. “Carey” foi selecionada para ser o single de promoção.

Muitas vezes, o álbum é citado como um dos melhores de todos os tempos, como na lista de 2003 da Rolling Stone dos melhores discos, obtendo a 30ª posição. Recentemente, a revista fez outra lista, desta vez com os 50 melhores álbuns femininos da história da música, e Blue ficou em 2º lugar.

Muitos afirmam que por ser delicado demais é um LP mais voltado para o público feminino. Pura bobagem. Blue se encaixa perfeitamente com qualquer apreciador do bom folk, pop rock ou para qualquer um disposto a se emocionar com música que não morre com o tempo.

Ficha técnica

Blue

Lançamento em 22 de junho de 1971

Selo: Reprise

Lado A
1. "All I Want" – 3:32
2. "My Old Man" – 3:33
3. "Little Green" – 3:25
4. "Carey" – 3:00
5. "Blue" – 3:00

Lado B
1. "California" – 3:48
2. "This Flight Tonight" – 2:50
3. "River" – 4:00
4. "A Case of You" – 4:20
5. "The Last Time I Saw Richard" – 4:13

Joni Mitchell – dulcimer, violão, piano e vocais
Stephen Stills – baixo e violão em "Carey"
James Taylor – violão em "California", "All I Want" e "A Case of You"
Sneaky Pete Kleinow – pedal steel em "California" e "This Flight Tonight"
Russ Kunkel – bateria em "California", "Carey" e "A Case of You"

Engenheiro de som – Henry Lewy
Direção de arte – Gary Burden
Capa – Tim Considine

domingo, 17 de junho de 2012

“Dançando Conforme a Música”, estreia de Mario Rossi

Com esta crescente onda de one-man band por conta da tecnologia, muito do que se escuta desse tipo de artista autônomo são sons mais experimentais, híbridos, que só ganhariam vida de fato por meio de apenas uma cabeça comandando tudo. Mas Dançando Conforme a Música certamente segue na contramão disso.

Acima de tudo, pode-se dizer que este primeiro álbum de Mario Rossi é um registro cuidadoso, pois apesar de ter feito o que lhe deu na telha, das composições à produção, Rossi teve muita cautela ao valorizar a espontaneidade rústica do rock ‘n’ roll e do blues, detalhe que não é fácil de obter sozinho, sem uma banda de apoio.

Ao longo de mais ou menos um ano, Mario se dedicou a este projeto solitário de compor e gravar todos os instrumentos. Apenas em alguns poucos momentos há a participação de mais alguém nas faixas.

“Busquei fazer o que gosto de ouvir nos clássicos. O disco foi acontecendo naturalmente. Não me prendi na ideia de soar atual”, comenta o músico. “Além disso, fui muito criterioso com tudo. Valorizei a música e a simplicidade na composição, das letras aos riffs de guitarra. Já na gravação, valorizei o instrumental despretensioso, natural e sem emendas – como todo disco de blues e rock ‘n’ roll deve ser”, ressalta.

Dançando Conforme a Música é uma costura meticulosa de referências que pouco se encontra no atual rock. Nas faixas pode ser percebida a influência direta de bandas como The Rolling Stones, The Faces e Derek and The Dominos. “Também sou grande fã do rock nacional. Tutti Frutti, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Raul Seixas etc. O disco tem todas essas referências”.

O álbum é sóbrio e divertido, um exemplo de como deve se construir um rock básico, orgânico e de fácil audição. Há equilíbrio na sonoridade, de forma que a crueza do álbum passa longe do saudosismo ao mesmo tempo em que não se assemelha com o contemporâneo.

O interessante trabalho de guitarras que passeia por todo o disco flui muito bem e em sutileza e dedicação é muito acima do que se encontra atualmente. Mario não faz restrições aos improvisos quando necessário e ao mesmo tempo não apela para um peso sem sentido. As sólidas bases de baixo e bateria, assim como as melodias, atingem rapidamente o ouvinte pela assimilação imediata e escancara a capacidade de Mario Rossi não só como guitarrista, mas como um músico de mão cheia e ainda com um longo caminho para explorar.

Abaixo, Mario comenta sobre as nove faixas de seu álbum de estreia:

“Tudo tem seu Preço”
“Essa eu fiz no final de 2008, melhor dizer que surgiu, pois em uns dez minutos a composição estava pronta. A letra é um ponto de vista bem parcial sobre ação e reação, em pensamento e atitude”.

“Mesmo Distante”
“É a mais pop do álbum, mas embora tenha uma melodia mais comercial, fiz questão de deixá-la soando setentista o máximo que pudesse, como naquelas gravações ao vivo. Os hits dos álbuns do Peter Frampton foram grandes influências pra essa música em todos os sentidos”.

“Dançando Conforme a Música”
“Eu tinha a letra praticamente toda pronta e o riff de guitarra. Não era o título inicial do álbum, mas como tudo foi acontecendo naturalmente, encaixou perfeitamente. Ela fala por sí. De uns tempos pra cá me dei conta que mudei nesse aspecto, digo, não temos controle das coisas, parei de planejar demais isso ou aquilo, então me dou por feliz em acordar e ter um bom som de blues pra ouvir”.

“Quem me Escuta”
“Essa é um lado B do Barão Vermelho, uma música bem legal. A primeira vez que ouvi já tive vontade de tocá-la nessa pegada mais cadenciada. O Frejat me autorizou de primeira, fiquei muito feliz com isso. Há aquele trecho na letra, que é: ‘Eu tenho um plano e não canso de correr atrás, e essa espera tira a minha paz’. Claro que contraria o assunto de "Dançando Conforme a Música", mas essa contradição acabou caindo bem”.

“Surreal”
"Uma das que mais gosto. Ela relata um amor platônico, mas de forma descontraída, sem sofrimento. A melodia e a parte instrumental são bem contagiantes, o que colabora pra essa qualidade. Os solos dividos de guitarra e piano dão aquele ar nostalgico de piano bar dos anos 1950, tipo aquele som das esquinas de Manhattan".

“Minha Rede Social”
"Essa fiquei em dúvida de colocar no álbum. Primeiro porque não sou fã dessas coisas de internet. Embora use, mas para contatos e o necessário somente. Enfim, ela poderia quebrar o contexto do restante do álbum por ser uma letra muito atual,  temporal demais. É sobre esses casos de mudança de comportamento no mundo virtual, essa coisa de autopromoção, guerra de egos etc."

“Romance Indefinido”
"Foi a que deu mais trabalho. Primeiro surgiu o riff, eu adorei, tinha que fazer alguma coisa com ele. Eu tinha mais ou menos esse tema em uma ideia de letra e depois surgiu o estribilho. Levou um tempo pra adaptar letra e melodia".

“Ela Era só uma Garota Querendo Aprovação do Mundo”
"Blues nu e cru. Essa tambem é sobre comportamento. Foi inteira composta durante as gravações. Notava isso em uma garota em especial, tipo aquela coisa ‘acharam isso ou aquilo de mim’. Mas tem muito de outras pessoas que eu incluí tambem. Enfim, é aquela coisa básica de viver de aparência e não de essência, pose por status".

“Novos Ares”
"Outro riff que surgiu pra mim. Maravilhoso! Preferi deixar só voz e violão. Foi gravada ao vivo, da melhor forma. Dois takes e pronto. A letra é bem simples e introspectiva, é sobre aquela parte nossa que morre todo dia e nasce outra de acordo com experiências, aprendizados, mudanças".

O álbum está disponível na íntegra no site oficial de Mario Rossi: http://www.mariorossi.com.br/.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lima Barreto - “Os Bruzundangas” (1923)


Se hoje fosse publicado Os Bruzundangas, aposto que em muitos aspectos a obra não estaria fora de contexto. Mesmo depois de muito tempo, este livro de Lima Barreto (1881-1922) ainda carrega a mesma força no sentido de denúncia, mesmo que nele permeie um modo mais leve de relatar temas negativos, se comparado com outros trabalhos mais recentes e de conteúdo similar.

Publicado postumamente em 1923, Os Bruzundangas é um conjunto de crônicas sobre um país fictício, a República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Esta nação hipotética contém basicamente os mesmos problemas encontrados no Brasil, e é nesse aspecto satírico que o autor se apega para condenar os problemas sociais, o que é uma característica muito presente em toda a obra de Lima Barreto. O termo ‘bruzundanga’ é um substantivo feminino que pode significar ‘burundanga’, que é o mesmo que ‘palavreado confuso’, ‘mistura de coisas imprestáveis’, ‘mixórdia’, ‘trapalhada’ ou ‘embrulhada’.


O livro é um diário de viagem de um brasileiro que morou por uns tempos naquele país e conheceu de perto os principais pormenores.  Ao longo dos capítulos, Barreto discorre sobre vários assuntos, dentre eles, a Constituição, a indústria, o nepotismo, o favorecimento aos políticos, a má educação, o setor defasado da saúde, a imprensa, além dos costumes do povo e da cultura (música, teatro, literatura etc.)

A maneira como ele aborda os problemas ainda é estritamente válida, fácil de ser adaptada para a nossa realidade. Além disso, o livro não se torna cansativo como alguns clássicos do mesmo período, tem pouco mais de 150 páginas e é capaz de conquistar o leitor menos acostumado com o estilo da época.

Mesmo com todo o humor e elegância, é bastante clara a denúncia para qualquer um que lê-lo, a crítica é incisiva. Para exemplificar, segue abaixo um trecho do sexto capítulo, “O Ensino na Bruzundanga”:

(...) Há casos tão escandalosos que, só em contá-los, metem dó.

Passando assim pelo que nós chamamos preparatórios, os futuros diretores da República dos Estados Unidos da Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do que quando para lá entraram. São esses tais que berram: “Sou formado! Está falando com um homem formado!”

Ou senão quando alguém lhe diz:

- Fulano é inteligente, ilustrado...”, acode o homenzinho logo:

- É formado?

- Não.

-Ahn! 

Nesse sentido de romance social, o autor, que também publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), é tido como o pioneiro no Brasil, e ao mesmo tempo como o crítico mais ferrenho da República Velha na esfera artística.


Segundo o próprio Lima Barreto, ele se enquadrava num segmento denominado ‘literatura militante’, e dizia que tinha como objetivo fazer comunicar umas almas com as outras para reforçar a solidariedade humana, tornando os homens capazes de se entenderem melhor. E é fácil notar essa mensagem em Os Bruzundangas, afinal, basta rememorar o retrato brasileiro daquele período e seus respectivos personagens e compará-los com os personagens da obra. São caricaturas explícitas.

Vale a pena lê-lo por muitos motivos, mas, repito, compará-lo com os dias atuais e enxergar uma série de semelhanças esdrúxulas é o aspecto mais irresistível. Parece praga, da boa e da ruim.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

“O Terceiro Tiro” (1955)



É curioso o fato de todos os filmes de Alfred Hitchcock serem agradáveis mesmo com a persistência do sórdido.

Certa vez me disseram que assistir a qualquer trabalho dele é satisfação na certa. E é mesmo. Sua filmografia é um raro caso de comprometimento que não consigo comparar com a carreira de nenhum outro diretor. Digo isso por que o homem insistiu tanto no suspense que sua imagem dificilmente consegue se desvincular do gênero, mesmo quando faz comédia. E esse é o caso de O Terceiro Tiro (1955), um dos filmes mais peculiares de Hitchcock.


Nesta produção, originalmente intitulada The Trouble with Harry, o diretor mostra que a morte é capaz de ser divertida. O filme gira em torno de Harry, um defunto caído em uma floresta, com uma marca arredondada de sangue na testa. Alguns moradores do local acabam se deparando com o cadáver e ao mesmo tempo todos eles sentem uma parcela de culpa, pois não conseguem de fato chegar à conclusão de quem o matou. Essa indecisão se transforma na cumplicidade entre cinco personagens, que pretendem esconder a morte de Harry da polícia.

Há muitos pontos que podem ser destacados em O Terceiro Tiro, mas o que mais chama atenção é a leveza que o filme transpassa.

Os diálogos são leves, carregados do senso de humor britânico. O próprio Hitchcock certa vez mencionou que o filme contém alguns de seus diálogos favoritos dentre todos os filmes que ele fez. O romance entre Sam Marlowe (John Forsythe) e Jennifer Rogers (Shirley MacLaine, em seu primeiro papel no cinema) também é leve e ingênuo, bem diferente da provocação sensual presente em Um Corpo que Cai (1958), por exemplo. Há também o flerte entre o capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn) e a solteirona Ivy Gravely (Mildred Natwick), que acaba rendendo atuações hilariantes. O garoto Arnie Rogers (Jerry Mathers), filho de Jennifer, também contribui para a comédia com sua natureza de pentelho.


A fotografia de autoria de Robert Burks é um caso à parte, é belíssima. Os tons alaranjados do outono de Vermont, nos EUA, transmite uma sensação de conforto como em nenhum outro longa-metragem de Hitchcock. Mesmo nas tomadas internas, Vermont está bastante presente. O filme apresenta cores vivas por toda sua extensão. Outro ponto crucial é a trilha sonora. A música principal soa tão adequada ao estilo de Hitchcock que anos depois, Bernard Herrmann, autor da trilha, utilizou trechos da peça musical para compor uma suíte em homenagem ao diretor.   

Curiosamente, O Terceiro Tiro fracassou nos EUA. Muito se justifica pelo fato de o humor negro predominante na produção ser absolutamente britânico, o que não agradou ao público. Já na França, por exemplo, o filme ficou em cartaz por mais de um ano, assim como na Inglaterra.

Com o passar dos anos, O Terceiro Tiro foi ganhando o devido reconhecimento. Atualmente, é comum ouvir pessoas admiradoras do mestre do suspense citarem este como um dos melhores filmes dele. Até o próprio Hitchcock afirmou que este era um de seus trabalhos favoritos. Vale a pena tirar sua própria conclusão.


Assista ao trailer neste link.


Ficha técnica 

Título original: The Trouble with Harry
Ano de lançamento: 1955
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock, Herbert Coleman,
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no romance de Jack Trevor Story
Duração: 99 minutos
Elenco: John Forsythe (Sam), Edmund Glenn (Capitão Albert), Mildred Natwick (Sra. Gravely), Shirley McLaine (Jennifer), Jerry Mathers (Arnie)

Por: Victor José

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Pop Barroco

Se a música radiofônica da segunda metade do século XX – sobretudo o Rock – passou a ser mais inventiva e ao mesmo tempo levada mais a sério, deve-se muito a uma vertente denominada Pop Barroco.

Este estilo emergiu em meados dos anos 1960, quando produtores e compositores beberam da fonte da música erudita e trouxeram ao Rock ‘n’ Roll elementos orquestrais. O resultado foi provavelmente a primeira amostra de que um som feito basicamente pra adolescentes poderia soar mais rico e intenso. 

Competição criativa

Pode-se dizer que um dos alicerces do Pop Barroco é a canção “Be My Baby”, interpretada pelo grupo feminino The Ronettes e composto, produzido e arranjado por Phil Spector. Lançado em 1963, o sucesso apresentava uma sonoridade diferenciada por conta da chamada Wall of Sound, técnica de gravação desenvolvida por Spector. O segredo consistia em juntar no estúdio uma infinidade de músicos (algo exagerado como quatro guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, piano, órgão, conjunto de cordas etc.) pra tocarem ao vivo a canção, sem edições. O efeito final era uma massa sonora que soava mais vigorosa do que as demais músicas do rádio.

E foi esse jeito peculiar de gravar, essa mistura de ingredientes inusitados no Rock que fez a cabeça de Brian Wilson, então baixista, produtor e compositor do The Beach Boys. A banda foi mudando gradativamente de direção estética. No single “When I Grow Up (To Be A Man)”, de 1964, nota-se a busca de Wilson por novas sonoridades pelo uso de um cravo. Nos álbuns posteriores, The Beach Boys Today! e Summer Days (And Summer Nights), a sofisticação vai ganhando mais corpo e a genialidade de Wilson começa a dar as caras.

Enquanto isso, os Beatles também começaram a alargar suas próprias fronteiras. Em Help! (1965) já havia um presságio de novos tempos com “Yesterday”, nitidamente mais madura que qualquer outra canção gravada pelo quarteto anteriormente. Mas no mesmo ano é lançado o LP Rubber Soul, este sim com um grupo realmente mais complexo e ousado. Somente a cítara de George Harrison em “Norwegian Wood” (instrumento até então nunca usado no Rock) já seria um bom motivo pra considerar Rubber Soul criativo e pioneiro em alguma coisa, mas Brian Wilson – de novo ele – enxergou ali algo ainda maior e absorveu o trabalho dos ingleses como um desafio, sentiu a necessidade de superá-los com algo ainda mais denso. E foi aí que veio Pet Sounds (1966) e o começo de uma batalha artística que renderia alguns dos maiores clássicos do Rock.

Brian Wilson parou de excursionar com o The Beach Boys. Com isso passou a se dedicar somente às composições e gravações enquanto o restante do grupo tocava pelo mundo. Pet Sounds somou mais de cinco meses de trabalho liderado por Wilson, que conseguiu captar o espírito juvenil e ao mesmo tempo uma sonoridade riquíssima em detalhes. Utilizando tudo o que fosse possível (de violoncelos e vibrafones a buzinas de bicicleta), o álbum é uma obra de arte sem precedentes. “God Only Knows” é considerada por muitos – incluindo Paul McCartney – como a melhor canção Pop de todos os tempos.

Os Beatles também vinham se dedicando mais às gravações do que às apresentações, tanto que, em 1966 anunciaram que passariam a trabalhar somente em estúdio. Esta atitude somou frutos que viriam a ser considerados os pontos altos da carreira do grupo, dentre eles, o LP Revolver, do mesmo ano, e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967. Neste período a banda ditou as regras da cultura Pop, e “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane”, “Eleanor Rigby” e “A Day in The Life”, que traziam a abordagem do Pop Barroco, se transformaram em referência do que podia se considerar moderno na música.

Brian Wilson bem que tentou fazer algo num nível ainda acima, mas sucumbiu às drogas e à loucura. Começou a gravar o LP Smile em 1967, mas abandonou o projeto, que só viria a ser lançado em 2004 como projeto solo. Em 2011, para comemorar os 50 anos dos Beach Boys, saiu o Smile Sessions, com gravações da época. .

Contemporâneos

Houve uma infinidade de grupos seguindo essa tendência no período dos anos 1960, medalhões como os Rolling Stones, por exemplo. Apesar da sonoridade calcada no Blues dos primeiros álbuns, a banda investiu em alguns momentos no Pop Barroco. Apesar de o flerte com o erudito não ter perdurado, “Lady Jane”, “Ruby Tuesday” e “She’s a Rainbow” são músicas importantes para o subgênero.

O The Left Blanke, de Nova Iorque, também foi um expoente crucial pra concepção do estilo. O compositor e tecladista da banda, Michael Brown, foi muitas vezes comparado a Lennon, McCartney e Wilson por conta de seu talento em fazer melodias sofisticadas e da ambição de introduzir elementos mais sérios na música Pop. Muita gente considera o primeiro álbum, Walk Away Reneé/Pretty Ballerina (1966), como o exemplo mais bem acabado da fusão do Pop com o erudito.   

Bandas como The Zombies aprimoraram o estilo seguindo os passos de Pet Sounds e Sgt. Peppers. O grupo britânico estava pra se desfazer quando juntou os cacos e fez um LP emblemático. Odessey and Oracle (1968), foi preparado sem a pressão da gravadora por algum sucesso, detalhe que acabou sendo resolvido naturalmente, pois “Time of The Season” agradou ao público em geral. Dada essa liberdade, o grupo pode abusar o quanto quisesse do experimentalismo, e o resultado foi um disco aclamado pela crítica até hoje. Odessey and Oracle, por fim, selou a dissolução do The Zombies, que foi coincidentemente seu momento mais prolífero.

Um caso similar à situação do The Zombies e que também deu bastante certo foi terceiro disco do grupo norte-americano Love. A banda liderada por Arthur Lee já havia conseguido algum sucesso na cena com o álbum Da Capo (1966), mas Forever Changes (1967) a música atinge outro patamar. O Love passava por um período de brigas internas e ameaças de dissoluções. Lee, que depois de uma viagem de LSD previu sua morte, estava determinado em deixar suas últimas palavras em vida (daí o título Forever Changes), e estimulou o grupo a gravar o álbum. São onze músicas coesas, impecáveis. Pode-se dizer que “Andmoreagain”, “You Set The Scene” e “Alone Again Or” são sinônimos de Pop Barroco. Os arranjos de cordas e metais permeiam quase todo o LP e complementam a banda de modo tão satisfatório que não dá pra separar uma coisa da outra.    

No decorrer dos anos, uma infinidade de artistas buscaram fazer esse contrapeso do moderno com o clássico: Moody Blues, Serge Gainsbourg, Pink Floyd, Scott Walker, Nico, Nick Drake, The Hollies, Sagittarius, The Free Design, Simon & Garfunkel...

No Brasil

Em 1966, o The Jordans, grupo instrumental brasileiro, gravou “Tema de Lara”, do filme Doutor Jivago, com arranjos arrojados em comparação com o conceito do Rock brasileiro. Um ano depois, a banda tocou na Europa, absorveu as influências e na volta gravaram “Walk Away”, do The Left Blanke, que em português ficou “Alguém Chorou”.

Por aqui, o estilo foi um forte aliado ao som dos Tropicalistas. A influência de Sgt. Peppers no LP coletivo Tropicália ou Panis et Circesis (1968) está escancarada, basta conferir “Baby” e “Enquanto Seu Lobo Não Vem”. O nome por trás disso é Rogério Duprat, maestro arranjador que trabalhou com a maioria dos artistas do movimento e aproximou um pouco mais os brasileiros das tendências internacionais. Dentre os Tropicalistas, os Mutantes se destaca como o grupo mais fincado nessa proposta orquestral, principalmente nos seus três primeiros trabalhos de estúdio.

Até Ronnie Von, antes mero galã das garotinhas, lançou em 1969 um emblemático álbum homônimo com excelentes canções de Pop Barroco, que na época foi mal compreendido pelo seu público acostumado com canções fáceis.

Legado

Dá pra dizer com tranquilidade que muitos subgêneros não existiriam sem o Pop Barroco. Sua importância está intacta e perdura até hoje por meio de uma porção de filhos e netos bem sucedidos, dentre eles, figuras do Rock Sinfônico como Yes e ELP, o chamado Art Rock do Queen em A Night at The Opera (1975), a Neopsicodelia do Echo & The Bunnymen em Ocean Rain (1984), o Rock alternativo do Smashing Pumpkins, Arcade Fire e The Last Shadow Puppets. É muita coisa. É quase impossível vislumbrar o Pop sem 1966 e 1967.

Para entender o Pop Barroco, recomendo escutar as seguintes músicas:

“Pretty Ballerina” – The Left Blanke
“Still You Believe in Me” – The Beach Boys
“Out Of Time” – The Rolling Stones
“A Rose For Emily” – The Zombies
“It’s Raining Today” – Scott Walker
“For No One” – The Beatles
“Fly” – Nick Drake

Por: Victor José
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